you want it darker

agosto 17, 2016 § Deixe um comentário

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(01 poema de leonard cohen, de seu livro “the spice shaped box”)

Você tem os amantes,
que não tem nome, suas histórias são suas apenas,
e você tem o quarto, a cama e as janelas.
Que seja como um ritual.
Bagunce a cama, enterre os amantes, suje as janelas,
deixe-os viver nessa casa por uma geração ou duas.
Ninguém se atreva a perturbá-los.
No corredor, visitantes passam de leve pela porta a tanto tempo fechada,
atentos a qualquer barulho, um gemido, uma canção:
nada ouvem, nem mesmo um suspiro.
Você sabe que eles não estão mortos,
você pode sentir a presença de seu intenso amor.
Tuas crianças crescem, deixam você,
se tornam soldados e viajantes.
Teu cônjuge falece após uma vida de trabalho.
Quem conhece você? Quem se lembra de você?
Mas em tua casa, um ritual continua:
não está terminado: precisa de mais gente.
Um dia a porta se abre para o aposento dos amantes.
O quarto se tornou um denso jardim,
cheio de cores, cheiros, sons que você não conhecia.
A cama está suave como uma hóstia de sol,
está só, no meio do jardim.
Na cama os amantes, lentamente e de propósito e em silêncio,
realizam o ato de amor.
Seus olhos estão fechados,
apertados como se pesadas moedas de carne estivessem sobre eles.
Seus lábios estão desmanchados com novas e velhas pisaduras.
O cabelo dela e a barba dele estão desesperadamente emaranhados.
Quando ele coloca a sua boca contra os ombros dela,
ela não sabe ao certo se seu ombro
deu ou recebeu o beijo.
Toda a sua carne é como uma boca.
Ele passeia seus dedos em sua cintura
e sente a própria cintura acariciada.
Ela o abraça forte e os braços dele a apertam.
Ela beija a mão junto a sua boca.
É a mão dele ou a mão dela, pouco importa,
há muito mais beijos.
Você permanece ao lado da cama, chorando de felicidade,
e com muito cuidado afasta os lençóis
dos corpos em lento movimento.
Teus olhos estão cheios de lágrima, você mal distingue os amantes.
Enquanto você se despe, você canta, e a tua voz é magnífica
porque agora você acredita que é a primeira voz humana
que se ouve nesse quarto.
As vestes que você deixou cair se transformam em videiras.
Você sobe à cama e recupera a carne.
Você fecha os olhos e os deixa ser cosidos.
Você provoca um abraço e se deixa levar.
Há apenas um momento de dor ou dúvida,
quando você se pergunta quantas multidões estão deitadas junto a seu corpo,
mas uma boca beija e uma mão dispersa o momento.

eu penso em jack kerouac

julho 31, 2016 § Deixe um comentário

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(dois poemas de Michael McClure, do livro The new book/ A book of torture)

para Jack Kerouac: A câmara

Eu, sento sentindo o cheiro da nuvem feita quase por movimento
de braço perna e língua. Em reflexos de ouro
luz. Tinta e lampejos de ouro e âmbar lançados
e reluzindo. vidro borrão.. vidro azul,
telefone preto. Quasechama de violeta e carne
vista na clara luz iluminada. Não é noite

e noite também. No Inferno, há estrelas lá fora.
E o percorrer de sons de carro. Sombras pálidas na parede
à luz
do quarto. Eu sento ou permaneço
querendo a enorme realidade do toque e amor.
No quarto revirado. Lembro o sonho de muito antes
de animais empalhados (lobo, raposa) em uma loja escura. Querendo
apenas a pureza das cores puras e novas formas
e sentimentos.
EU CHORARIA POR ELES INUTILMENTE

Eu tenho dez anos de vida para adorar os jovens
Billy the Kid, Rimbaud, Jean Harlow

***

NO INFERNO ESCURO NO QUARTO ILUMINADO EM MARROM E CROMO eu sinto o cheiro de
fumaça a drenagem o fluir do movimento de exaustão, o percorrer de sons de carros as sombras pálidas
no muro. Eu sento ou permaneço. Preso na rede de reflexos da mesa de canto para o nivelador
da maçaneta ao chão, ângulos de luz uniforme, adaga radiante. Diante da face do amor.
O telefone em luz catalizadora. Quasechama de azul e vermelho vista na poeira clara.
Eu vejo a mim mesmo – nós mesmos no Inferno sem brilho. Reflexos que somos.
Os carros que passam fazem barulho e sombra pálida no muro.
Eu sou real como você é real a quem eu falo.
Eu levanto minha cabeça vejo sobre a ponta de meu nariz. Olho
e vejo que nada mudou. Não há lampejo
em meus olhos. Sem mudança no quarto.
Vita Nuova.. Não! o morto, morto mundo.
A tensão do desejo é apenas um gesto heróico.
Que agonia estar tão em dor sem alívio
quando amor é uma palavra ou beijo.

sincerely,

junho 4, 2016 § Deixe um comentário

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(03 poemas de leonard cohen, de seu livro “the energy of slaves”)

Bem vindo a essas linhas
Há uma guerra em curso
mas tentarei te deixar confortável
Não vê minha conversa
é apenas nervoso
Não nos amamos
quando éramos estudantes no Leste
Sim a casa está diferente
a cidade será tomada em breve
tirei tudo não importa o quê
o que poderia dar algum conforto ao inimigo
Estamos a sós
até os tempos mudarem
e quem tiver sido traído
voltar como peregrinos até agora
quando não cedemos
e chamamos a escuridão de Poesia

*

Este é o único poema
que posso ler
Eu sou o único
que pode escrevê-lo
Outros podem pensar
que o passado dá a direção
Minha própria música
não está apenas nua
Tem as pernas abertas
É como uma buceta
e como uma buceta
deve manter orgulho
Eu não matei a mim mesmo
quando as coisas deram errado
Eu não me voltei
para as drogas ou estudo
Eu tentei dormir
mas eu não conseguia dormir
Eu aprendi a escrever
Eu aprendi a escrever
o que pode ser lido
em noites como esta
por alguém como eu

*

Debruçado sobre seu poema
de uma posição maior
de cuecas
a cama sem fazer
o poema por terminar
ele risca um verso
dá um passo para trás
o trabalhador sério
o adolescente virtuoso
O poema será visto depois
em uma coleção
Ficamos só o garoto e eu
O garoto e eu juntos por minha vontade
se retiram tristemente
para a cama desfeita
Eu ajeito o divórcio
Eu os proibido de confortar a você esta noite
Garotas más escondem minhas canções
sob camadas de maquiagem
Deixando a companhia dos grandes roubos
eu retorno a minha aventura solitária

uma visão

janeiro 6, 2016 § Deixe um comentário

.O que segue são trechos de uma longa entrevista concedida em 1969 por Michael McClure. A tradução aí está bastante livre, dada a circunstância. Há notações sobre algumas referências, algumas ideias mais gerais quanto a poesia e algo mais restrito sobre as relações do poeta com o seu fazer.

1
Michael McClure: Eu vim para San Francisco por duas razões: para acompanhar Joanna [McClure] e para ter aulas com Mark Rothko e Clyfford Still. Quando cheguei, eles tinham partido no ano anterior.

A mística do Expressionismo Abstrato me deixara fascinado. Eu teria me tornado pintor, caso eu tivesse assistido a aquelas aulas, mas até então eu nunca tinha me visto assim. É que eu estava vivenciando o que os pintores experimentavam na mesma época.

(quando descobriu a obra de William Blake) Muito cedo. Eu estava escrevendo poemas no estilo de Blake quando eu tinha dezessete anos. Logo após o ginásio eu terminava aqueles poemas pictográficos […] – embora eles se tornassem cada vez menos pictográficos e tomavam mais a forma de versos livres. Então descobri Blake.

Comprei uma coletânea de poemas de Blake e Donne porque alguém me recomendara Donne. Não consegui ler Donne, mas descobri aqueles inacreditáveis poemas de Blake. No processo, também descobri Milton. E entre Blake, Yeats e Milton eu me senti desafiado a aprender sobre métrica, tipos de estrofe e formas de poemas, como soneto e a vilancete.

Escrevia pouco na época de colégio e não me importava muito quanto a isso. Acho que foi um período hermético, foi como um longo período de meditação sobre as formas poéticas.

Também compreendi o que Dylan Thomas estava fazendo. E eu estava terrivelmente impressionado pelo Rothko.

Eu estava escrevendo poemas à maneira de Blake. Um meio caminho entre Blake e Baudelaire, e ao mesmo tempo aprendendo formas como o soneto Petrárquico, a balada, a vilancete, a sextina.

Era muito difícil para mim escrever um soneto. Eu podia passar semanas em um soneto e então esperar muito mais antes de escrever um outro poema. Eu estava muito atento em conseguir o metro exato, seguindo a voz.

Mas quanto a Blake, eu sonhava que eu era Blake!

(…) Durante aqueles primeiros anos de colégio, eu corria atrás do que então era chamado de “beboppers”, com músicos de jazz, em meados da década.

(…) eu sabia muito pouco da música, até mais ou menos esse tempo. Antes, eu ouvia muita música clássica e gostava. Beethoven e Mozart, principalmente.

Eu seguia os beboppers, indo em todas as jams e clubes, e sem saber muito da música deles até um ano depois. Eu ia pelas drogas e pela fissura e porque você ficava acordado a noite toda e dormia durante o dia. Até que um dia alguém estava tocando Thelonious Monk. E eu ouvi aquilo. Então ouvi Bud powell, e então eu soube ouvir tudo.

(sobre o que ouviu em Thelonious Monk) Uma ocasião emocional bastante exótica, altamente estruturada, misteriosa. Elegância. Elegância do intelecto e do corpo se movendo em sintonia com os elementos. Porque você tem que necessariamente se mover. Mover suas mãos em volta.

Encontrei Monk e então, me parece, descobri Powell e então Gerry Mulligan – e quem era aquele jovem trompetista que tocava com Mulligan…? [isso] Chet Baker. Chet Baker, Anita O’Day, Charlie Parker. Passei por todos: Gillespie, Parker, “Salt Peanuts”, “A  night in Tunisia”, “Ornithology”, “How high the moon”…  e muito mais que agora não me recordo. Ouvi a música por um ano até ser tocado. Antes disso mesmo chegar à minha pele.

(…) Cheguei em San Francisco em 1954. Frequentei as oficinas de Robert Duncan, e mostrei sonetos a ele. Robert estava pasmo por alguém tão interessado em poesia entregar sonetos e vilancetes. Ele tentava me levar a escrever versos livres e eu não estava maduro o bastante para explicá-lo que eu já tinha passado por isso, que o que eu estava fazendo o interessaria.
Acho que nós estávamos surpresos um com o outro. Eu estava maravilhado por sua clareza de percepção e sua habilidade de se expressar e ser conciso. Eu já tinha passado pelo verso livre e então eu estava experimentando formas muito tradicionais como a sextina, o clássico soneto petrárquico etc. Robert não entendia por que eu estava fazendo isso, porque para ele esse tipo de coisa era um cavalo morto. Para mim era o limite do que eu queria conhecer antes de jogar tudo fora.

[Robert Duncan] Foi um excelente professor. Uma das melhores coisas que já aconteceram em minha vida, ter Robert ali, em frente ao quadro, falando por duas ou três horas sobre um verso ou uma palavra ou um poema ou o que quer que lhe passasse à cabeça em relação a seu próprio trabalho ou o trabalho de outra pessoa. Eu acredito no clichè que poesia ou pintura não se ensina, mas também aceito que são as exceções à regra que fazem as regras, e eram assim as aulas de Robert.

(…) Eu sabia que após aqueles dois vilancetes para Rothko tanto a métrica quanto o gênero não me interessariam mais. Eu estava satisfeito. (…) Ao olhar um soneto você tem que perceber uma ideia, a resolução de uma ideia e uma maneira de apreendê-las. Deve estar claro a você o processo intelectivo na escrita do poema. Ao invés de apenas dizer: Tenho uma namorada; é primavera; eu transei; eu não transei; a água é maravilhosa; olha, um animal… quero dizer, se percebe que você se relaciona com mais do que isso e você então é forçado a buscar na estrutura das ideias que suportam o poema. Um poema não me interessa muito ao menos que seja ambas as coisas, intelectivo e emocional.

Tudo isso passava por minha cabeça. Era como o que estava acontecendo com os expressionistas abstratos na época. Eles estavam aprendendo a escrever a própria biografia nos movimentos de seus corpos sobre a tela. Quer seja essa tela procurada em 200 ou 300 anos, isso não me interessa. O que me era interessante, embora eu não soubesse formular isso então, é o fato de uma ocasião espiritual que eu pudesse acreditar. E estava viva e brilhante enquanto eu olhava para ela. Eu estava bastante tomado por este conceito, e isso me influenciou sobremaneira. Ainda vejo as coisas nesses termos. Eu vejo o rock’n roll como uma ocasião espiritual. Eu via a movimentação como sendo uma ocasião espiritual. Eu vejo as novas artes esculturais como sendo uma ocasião espiritual. Eu via Ginsberg como uma ocasião espiritual. A geração beat ainda, o San Francisco Renaissance. Sinto como se eu fosse uma corda e essas ocasiões espirituais fossem pérolas ou miçangas que passam por mim exatamente como acontece em uma molécula complexa, RNA, derivam ao redor do ribossomo para criar proteína. É como se eu fosse uma corda por onde pérolas, ou ribossomos, os eventos trafegam e daí eu formo a proteína de meu ser ao redor.

Se nós somos, de alguma maneira, geneticamente indestrutíveis até o nosso fim, eu acho que seja razoável que, melhor do que começar com uma filosofia ou cosmologia anterior, que eu me permita me formar à minha volta. Também sinto que tudo cresce. Minhas relações crescem. Oh, há espaços mortos. Há os nós no colar entre as pérolas. Também observo esses nós.

Acredito que a maioria de nós tende a viver situações estáticas – muito para nossa perda. Alguns podem existir estaticamente por causa das drogas. Podem existir estaticamente devido a alguma situação tal. Por sorte, você se depara com alguns conceitos. Você também pode formar uma opinião intelectiva ou emocional ou física e jogar tudo fora e voltar com mais depois.

(…) Eu me interessei na topologia de como nossa mente funciona, e cerca de 2/3 da maneira de escrever é descobrir como a informação é armazenada hologramisticamente no cérebro. Em outras palavras, fontes incalculáveis sobrepondo-se, ao invés de apenas uma, e isso era exatamente o que estava acontecendo comigo.

Tudo se sobrepondo a tudo o mais e iluminando. Não é algo armazenado segundo nossas ideias de racionalidade. Está armazenado em uma base orgânica, e tudo se sobrepõe a tudo, e enquanto uma memória acende ilumina de relance uma outra memória. Se você ilumina uma memória próxima, ilumina uma memória inesperada. Então isso ilumina de relance uma outra memória, e uma outra próxima e aquela entre essas.

As novas ciências da microbiologia têm muito pouco a ver com as ciências que as precede. Boehme dizia que o universo em que vivemos é o resultado do atrito entre a alegria celestial do universo e as chamas negras – o que eu acho tão acreditável quanto átomos e moléculas.

Penso que devemos acreditar em tudo que seja razoável para nós. O conceito de Boehme sobre a nossa existência é tão verdadeiro espiritualmente, ou mais ainda, quanto átomos e moléculas.

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em campo aberto

novembro 29, 2015 § Deixe um comentário

O cotidiano, de Robert Duncan

……………………Não há por onde que a cada dia eu não tenha sido
……………………………..iniciado.
……………………….A aceitação é tudo.

Finalmente vem, ……………na aurora do outro lado
……de mim, ……..a inalterada
resolução, ………….meu caso com o começo deste mundo
………………………considerado até o enfim
mantenedor de um eterno refrão, ……………os rituais diários:
o desembrulhar, o se estender, até dobrar a coluna,
……emergindo, respirando o ar do dia,
……consciente, abrindo os olhos para panhar
uma vista inteiramente minha de você
……– deleite, como
……………………..tão próxima é a primeira vista,
o sentimento deste acordar,
o roubo de uma chama que arde, ………..desta
……infância prometeica,
dos fundamentos de um abraço conhecido,
……do alto dos detritos do sonho
……………………..no desejo do corpo preparado
para se levantar mais uma vez de suas cinzas –
……familiar, ……estranho, ……familiar
tudo aqui, …………esta quietude feliz,
já atribulada pela queda
……dos resquícios de uma outra vida
……………………..no Lethes.

*

Eu não falo aqui deste rio
….por você tomado como uma alusão
………..aos antigos mitos e poesia,
embora também pertença a uma história,
mas de um fluir por baixo na correnteza da vida,
….um mergulho mais profundo,
…………..uma perda do essencial em
sombras e ressaca –
….de onde eu me levanto quando é dia.
O rádio na cabeceira que ligo quando acordo
….anuncia o minuto da hora.
…………..No âmbito desta mente eu retorno,
os passos do sol já
….a prumo e número,
…………..as medidas rememoradas.
Sete da manhã se renova na refeição de logo cedo
– a riqueza do café, o gosto do pão
torrado, combinado com geleias e marmelada – nós
…………..começamos por nomear o dia
com a instituição de uma escolha de …….coisas
….e repetições em nosso caminho, ……
alterando sutilmente o curso das decisões ……para além
…………..dos desenhos ……e inalteradas variações.

*

Eu falo aqui de percorrer a Terra
por aí à luz do sol mais uma vez,
deste “e aconteceu que…”
que tomamos lugar, …………nosso, …………repentino,
inevitável, responsável, ….esta corrente
volta ao redor do marco de um outro ano,
este já ….mais velho retorno
……..à primavera novamente,
chegando ao mais ao leste, nestas
……paixões da ressurreição, a mistura
dos rios da vida nesta cerimônia de entrega,
……na precessão dos equinócios no Grande Ano
……..ao florescer das insurreições de Aquário.

*

Mais uma semana e estará aqui
……ainda
……………“isto”, ……a persistência com a qual eu pareço
esboçar um “Eu” daí. Aquela
……….fonte, Memória – enquanto esta,
……………Lethes, o que cura. …………As duas águas
derramadas para fora da boca do Isto. ……….As guerras,
……….a raiva pela retribuição dos erros,
……………o Homem do Oriente sobre sua cruz,
a sucessão de perdas e amores
……….vista outra vez, o golpe,
……………a queda de todo o bom,
a disputa com o mal,
……….a alegria vulgar – adiante.
…………………………..Foi isso o que oferecemos,
……………..incidentes que a mente mal recorda.
………………………………………………………………..Deixe-me, então,
……………recitar as estações como se eu recitasse
…………………………..o passar de anarquistas e grandes reis.
……………Graciosamente agora
…………………………..notícias chegam do Sul,
……………..dons de um outro tempo que eu
……………deveria guardar na perda. ……Eu realmente
……………..estive lá?

houve um tempo em que…

setembro 23, 2015 § Deixe um comentário

.Robert Creeley sobre San Francisco, Março–Junho de 1956

Há beleza no mundo quando pessoas e lugares “queimam feito chama”, como Olson costumava dizer. Quem sabe a razão, enfim, exceto que alguma intuição ou hábitos ou simples coincidência arranjou o que vem a ser o caso – em que todos aqueles abençoados, em verdade, estão presentes.

Assim eu me senti, chegando em São Francisco em março de 1956. A cidade era humanamente muito bonita, mas apenas isso não teria mudado minha cabeça. Eu tinha deixado a Black Mountain [School] no começo do ano, em um desespero verdadeiro, com um casamento finalmente chegado ao fim, separado de minhas três crianças, muito confuso até mesmo para suportar a mim mesmo – e assim eu fui para o oeste, pela primeira vez, pensando em me livrar de toda aquela coisa do leste que eu trazia de New England em meus hábitos. Eu tinha amigos em New Mexico – um lugar fenomenal por si só – e pensei em ficar por lá, mas depois de um mês ou algo assim eu me vi ansioso, dependente e sem muita clareza sobre o que fazer. Um velho amigo e aluno da Black Mountain, Ed Dorn, estava vivendo em San Francisco e para lá eu fui – para ver o oceano Pacífico, nada mais.

Cheguei lá no meio da tarde, se me lembro bem. Com Ed e Helene dei uma volta rápida pela cidade, em seu pequeno Morris Minor, e brindamos depois. Ed me disse que Rexroth gentilmente nos convidara para jantar, mas que ele tinha que ir trabalhar no terminal de ônibus em Greyhound. Eu, nesse ínterim, bebia cada vez mais e vomitei muito na rua antes de chegar ao apartamento de Rexroth. Todos lá já tinham comido, não fizeram muita questão de minha demora. Mais tarde, na mesma noite, voltando ao apartamento de Dorn, fui agraciado pela chegada de Allen Ginsberg, à meia noite (ele saia de seu turno no terminal Greyhound a essa hora), e conversamos muito sobre escrita e “verso projetivo” e sobre seu interesse em Kerouac e Burroughs. O que eu sabia deles era muito pouco, mas fascinante – Robert Duncan me contara que Kerouac era o cara que tinha escrito centenas de páginas nas quais a única ação física aparente era uma luz neon, sobre uma vitrine, ligando e desligando. De Burroughs, em um caso que ele confundiu com Jack, foi dito ter sido ele questionado em uma festa sobre sua habilidade com armas, em atirar em uma maçã sobre a cabeça de sua esposa. Uma arma foi dada a ele, que mirou e atirou… e ela morreu. Uma comentário apócrifo que teria dito foi: “eu nunca teria usado uma .45, estas sempre baixam o cano quando atiram…”

Esses pernoites semanais na casa de Rexroth provaram ser um solo bastante fértil para os encontros. The Place, um grande bar com o genial anfitrião Leo e às vezes o bartender John Ryan, foi outro. Certa noite, Allen disse aos Dorns e a mim que nos encontraria lá assim que saísse do trabalho, e então ele nos apresentaria a Jack Kerouac, agora de volta à cidade. Chegamos cedo e nos sentamos em uma pequena mesa em frente a este pequeno espaço, e esperamos, naquela de tentar adivinhar quem ali seria Jack. Fiquei particularmente invocado com um homem que estava sentado contra a parede, no rumo do banheiro, aparentemente sozinho, meio que devaneando, de olhos extraordinários e uma cabeça que era sabe lá como maior do que a medida de intensidade de vida. Quando Allen chegou, perguntou se nós tínhamos visto Jack. Dissemos que não, e então ele apontou para aquele homem e confirmou que era ele. Mas conversamos pouco naquela noite, infelizmente. Jack estava um pouco alto e quando voltamos ao apartamento que ele dividia com Al Sublette, para comer – um pedaço grande de carne, me lembro, que chegou a cair no chão enquanto o preparávamos – Jack apagou na cama. E quando me delegaram para acordá-lo, ele me olhou com aqueles olhos extraordinários e eu me senti como um perfeito idiota.

Lembrando agora, tudo vem como em um turblhão. Grandes festas na casa de Locke McCorkle, em Mill Valley – Allen e Peter charmosos, dançando nus entre outros corpos vestidos, flores no baile! Jack e eu sentados na beirada, tímidos, fumando umas baganas, “mantendo a batida”. Os sábios jovens olhos e velhos de Gary Snyder, centrado e tímido também. Phil Whalen dizendo: “Bom, Creeley, espero que você saiba o que está fazendo…”. Visitas a Michael McClure, com Ed – Ronnie Bladen no andar de cima em sua inexplicável comuna. Michael praticando trompete (na adega?) – seja como for, explosões de som e sua conversa sobre Pollock, energia… Lawrence Ferlinghetti, do lado de fora de sua grande e começando ainda a livraria Citylight, me perguntando sobre como era viver em Mallorca – barato? Ele teve o cuidado de fazer uma resenha sobre The Gold Diggers para o San Francisco Chronicle, e foi certamente a primeira. Andando pela cidade com Allen e Phil, Allen lendo Howl para nós, que ele tinha anotado em um grande caderno de capa preta, a cada vez que parávamos em uma esquina ou em um café (de Mike, grande comida italiana) ou apenas em um banco em uma praça. Datilografei a chapa para uma pequena “edição” deste poema transformador – eu estava tentando arrumar um emprego e Marthe Rexroth me deu o trabalho que, eu me lembro, Allen tinha oferecido a ela -, anterior a aquela edição pela Citylight.

Havia outros queridos amigos nessa época, James Broughton (um velho amigo de Duncan), Kermit Sheets, Madeline Gleason. (Duncan mesmo estava na Black Mountain, mas seu cuidado para que eu me sentisse em casa era imenso). Eu os procurava quando me sentia exaurido, o que acontecia com certa frequência. Finalmente consegui um apartamento em Montgomery Street, embora eu não tenha conseguido viver lá. Escrevi alguns poemas, mesmo assim – em uma velha Marthe [máquina de escrever]: “Please,” “The Bed,” “Just Friends” (em referência a uma antiga música de Charlie Parker), “She Went to Stay,” “A Folk Song,” and “Jack’s Blues” entre outros. Certa feita, convidei a turma e um deles era particularmente perigoso. Seu prazer era apresentar jovens estudantes (havia duas com ele) à heroína, e com isso fiquei doido. Peter Orlovsky, verdadeiro anjo, de alguma forma conseguiu colocar todos para fora e então parou na porta antes de sair, me perguntou se eu preferia as luzes apagadas.

Falavamos sem parar, dia e noite, sobre nossas ideias sobre a escrita, possíveis publicações… Jack não deixaria os editores cortarem On the road do jeito que tinham feito em The Town and the city – ele estava se preparando para a visita ameaçadora de Malcolm Cowley, “para falar sobre”, que Jack corretamente temia poder ser um sério “aviso”. Ambos, Ed e eu, éramos questionados sobre Olson e seu “verso projetivo” – teria sido mais uma cena de intelectualismo? McClure e Whalen estavam particularmente intrigados, e nesta época já se correspondiam com ele. Allen, como sempre, em alerta sobre qualquer informação sobre processo [criativo] que poderia ser útil.

Assim o tempo passava, e foi tão cheio de acontecimentos que me parece agora estranho que tudo se deu em apenas três meses. Chegou Junho, e eu me sentia agoniado novamente, e então voltei para New Mexico, com uma grande mochila (consegui colocar todas as minhas coisas nela e ainda a máquina de escrever, não sei como) e um saco de dormir que Jack me ajudou a encontrar. Eu ainda os tenho. O saco de dormir, de fato, está sobre a cama no quarto ao lado.

Por que isso importa? Às vezes, parece tudo o que temos de possibilidade humana, manter a fé – apesar de que um velho saco de dormir e uma mochila velha de acampar agora parecem como coisas velhas que deveriam ser passadas adiante, vocês devem imaginar. Toda vez que atravesso o país, em um velho Volkswagen, tanto quanto eu, enfrentando aqueles descampados do Kansas (onde Burroughs certamente fez aquele comentário, alguém pode ter medo), eu penso em Neal Cassady e naquele Pontiac em que ele poderia virar esquinas como se tudo girasse. Pura energia em chamas. Ouvindo sua fantástica gravação indiana de Locke, Neal sinalizando o trem…

Pessoas dão a você uma vida assim. Coisas que você achava que conhecia ou que poderia conhecer. De repente, é possível. Respostas que você nunca esperava que partissem de você mesmo. Uma vez, após uma festa na casa de Locke que durou a noite toda, o pessoal teve que se recolher para descansar numa casa ao pé da montanha, um cheiro forte de almíscar e ervas, em uma pequena cabine no alto, crianças e adultos, todos juntos amontoados – Jack propôs que ele e eu dormíssemos do lado de fora, só para sentirmos melhor o ar selvagem e a calma escuridão. Acordei na manhã clara, com o rosto de Jack a algumas polegadas do meu, perguntando em uma graça austera: “se sente puro?”, ao que respondi, como se por um momento em sua mente, que é como perguntar se a água é molhada.

Buffalo, N.Y.
Setembro 13, 1974

tempo, tempo, tempo, tempo…

setembro 21, 2015 § Deixe um comentário

 the rhythm, de Robert Creeley

Tudo é ritmo,
do fechar
a porta, até a janela
abrir,

as estações, o sol
claro, a lua,
os oceanos, o
crescer de tudo,

a consciência no homem
individual, recorrente
em tudo isso,
pensando o fim

não é o fim, o
eterno retorno,
tudo passado mas
alguém está a vir.

Se na morte estou morto,
então em vida eu vou
morrendo, morrendo…
E as mulheres choram e morrem.

As crianças
apenas envelhecem.
A folha seca,
a força se esvai.

Mas é encontrada em outra
volta, oh não a minha,
não a minha, e
por sua vez morre.

O ritmo que projeta
de si mesmo continuidade
dobra tudo à sua força
da janela à porta,
do teto ao chão,
claro ao abrir,
escuro no fechar.

a mão estendida

maio 27, 2014 § Deixe um comentário

.(anotações à luz do candeeiro)

  …….I O poema em si nada diz. A princípio, não passa de letra morta, rabisco posto no papel. Por apresentar algum ordenamento, esses rabiscos, acreditamos que tal estrutura representa palavras, e palavras funcionam tendo em vista a língua, que é uma construção social. A função primeira e necessária da língua é a comunicação, daí esta ser considerada como o fundamento da comunidade. Então é isso, a grosso modo, participamos todos de um mesmo código e assim julgamos um comum entendimento. Mas, observemos um pouco mais de perto: como mensurar o escopo de tal palavra em um ordenamento a princípio único? Talvez nos entendamos sim em um sentido geral, mas como compreender a extensão do alcance de um signo, de maneira eficaz, no colocar-se de um indivíduo? Sabemos muito pouco de suas relações, observamos apenas a parte que nos compreende, por qual somos compreendidos. Com que pretensão apontamos esse dedo… quanta graça a nossa. E assim a vida continua. Mas o poema em si nada diz. O poema é mão estendida e, desta maneira, realiza-se apenas no encontro. Isso que dizer que não há sujeito para a ação, mas que a própria ação é o sujeito do todo. Que alívio agora não saber-se alheio a tal presença: a disponibilidade no passar de vistas sobre um poema compete em nos dizer Sim ao encontro. Esta é a ação, o poema não se realiza de outra maneira. Nos tornamos aqui obra de arte, poema do poema, à medida em que o encontro nos afeta. Não é preciso gostar do poema; o gosto nada mais é do que conveniência, e isso responde aos discursos que socialmente compartilhamos. Não se trata disso. O poema nos põe a nu diante do outro, nos atrai para a dança. É o que perpetua a espécie.   …….II Individualmente, a questão se coloca da seguinte maneira: Poesia é corpo, poema é palavra. A palavra é um recorte sonoro que evoca certa realidade, logo, é extensão do corpo: ar que nosso organismo libera através de suas contrações e diligências. Geralmente, uma criança chora ao nascer, e depois suas primeiras tentativas de comunicação são balbucios. Mas, essa tentativa é endereçada a quem ou, antes, a pergunta deveria ser outra, responde a quais processos? É apenas com mais tempo que a criança começa a se compreender entre outros, crianças maiores que lhe respondem quando chora, ou quando se. Palavra é extensão, mão estendida, o corpo que toma tento. Se, de maneira isolada, a palavra participa de um código social, ou se encontra a partir da língua, é na sintaxe que o jogo se apresenta. Eis, então, o limar entre a gramática e a existência. Apesar de todos os fatores histórico-sociais que nos colocam na vida culturalmente, cada indivíduo da espécie é único em sua desenvoltura. Seus gestos mínimos são apenas seus, sua respiração, seu contentamento. Nada disso cabe ao outro. Construímos o corpo ou somos construídos na medida do atrito. Tantos corpos espalhados pela casa neste momento e cada um destes tem algo a me dizer. Cada um. Esses corpos são como escritura do dedo de Deus e apenas ao profeta é dado conhecer o que tais palavras dizem. Basta estar aberto e disponível. Assim o poema se faz.   Nota: mas o que é o profeta se não aquele que habita a língua, por dentro e por fora. O poeta é um desterrado, passageiro promíscuo, baba do diabo. Com seu candeeiro aceso, atravessa a noite e amanhece; a aurora é seu poema, por ser de Orfeu discípulo. O que as palavras querem dizer? É canto, ofegante. O ar é mínimo. O caminho é devagar. de um lado a vida do outro a vida. Lembra…

notas de um pintor

dezembro 15, 2013 § Deixe um comentário

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Pode-se obter com as cores efeitos de plena concordância apoiando-se no parentesco ou nos contrastes entre elas. Muitas vezes, quando me ponho a trabalhar, num primeiro momento anoto sensações frescas e superficiais. Há alguns anos, esse resultado às vezes me bastava. Se eu me contentasse com ele hoje, agora que penso enxergar mais longe, restaria algo vago em meu quadro: eu teria registrado as sensações fugidias de um momento, que não me definiriam inteiramente e que eu mal reconheceria no dia seguinte.

Quero chegar a esse estado de condensação das sensações que constitui o quadro. Poderia me contentar com uma obra resultante de uma primeira tentativa, mas depois ela me cansaria, e prefiro retocá-la para poder reconhecê-la mais tarde como uma representação de meu espírito. Em outra época eu não deixava minhas telas penduradas na parede, porque me lembravam momentos de superexcitação e não gostava de revê-las estando calmo. Hoje em dia tento lhes incutir calma e as retomo até conseguir.

Tenho de pintar um corpo de mulher: primeiro dou-lhe certa graça, um encanto, e então tenho de lhe imprimir alguma coisa mais. Vou condensar a significação desse corpo buscando suas linhas essenciais. O encanto será menos aparente à primeira vista, mas com o tempo deverá se desprender da nova imagem que eu tiver obtido, e terá uma significação mais ampla, mais plenamente humana. O encanto lhe será menos saliente por não ser sua única característica, mas nem por isso deixará de existir, contido na concepção geral de minha figura.

(do livro Henri Matisse, escritos e reflexões sobre arte
– ed. Cosac Naify, 2007)

da arte como drama

novembro 20, 2013 § Deixe um comentário

.The romantics were prompted…, ensaio de Mark Rothko
publicado na revista Possibilities, vol.01 (inverno, 1947/1948)

Os Românticos estavam incitados a procurar por temas exóticos e a viajar para lugares distantes. Fracassaram por não perceber que, embora o transcendente envolva o estranho e o desconhecido, nem tudo que é estranho e desconhecido é transcendental.

É difícil para o artista aceitar o descaso da sociedade. No entanto, essa hostilidade pode atuar como uma alavanca para a verdadeira evasão. Liberto de um falso senso de segurança e comunhão, o artista pode abandonar sua capa de livro, assim como abandonou outras formas de segurança. Tanto o senso de comunhão quanto o senso de segurança se firma no familiar. Livre de ambos, experiências transcendentais se tornam possíveis.

Penso em minhas telas como dramas; as formas na tela são os atores. Foram criadas na necessidade por um grupo de atores que seja capaz de se mover dramaticamente sem barreiras e executar gestos sem restrições.

Nem a ação nem os atores podem ser antecipados ou descritos a priori. Começam como uma aventura desconhecida em um lugar desconhecido. É no momento da realização que em um lampejo de reconhecimento são apreciados na quantidade e função a que se pretendem. Ideias e planos que existiam na mente no começo eram apenas o portão através do qual foi deixado o mundo em que ocorrem.

Assim, as grandes telas Cubistas transcendem e enganam as implicações do programa Cubista.

O instrumento mais importante que o artista talha através de uma constante prática é a fé em sua habilidade em produzir milagres quando necessário. A pintura deve ser milagrosa: o instante se finda, a intimidade entre a criação e o criador está terminada. Ele está de fora. A tela deve ser para ele, assim como para qualquer outro que vier a apreciá-la depois, uma revelação, uma resolução inesperada e sem precedentes de uma necessidade eternamente familiar.

Não há qualquer relação direta com qualquer experiência visível, mas ali se reconhece o princípio e a paixão do organismo. A apresentação desse drama no mundo familiar nunca foi possível, ao menos que a rotina atuasse como um ritual aceito em referência a um campo transcendente.

Mesmo o artista arcaico, que tinha um estranho virtuosismo, percebeu a necessidade de criar um grupo de intermediários, monstros, deuses e semi-deuses. A diferença é que, embora o artista arcaico vivesse em uma sociedade mais prática do que a nossa, a urgência por uma experiência transcendente era compreendida em um status oficial. Em conseqüência, a figura humana e outros elementos do mundo familiar poderiam ser combinados ou participar enquanto um todo na sanção dos excessos que caracterizam essa improvável hierarquia. Conosco, o disfarce deve ser completo. A identidade familiar das coisas tem que ser pulverizada a ponto de destruir as finitas associações com as quais a nossa sociedade constantemente encobre cada aspecto de nossa realidade.

Sem monstros e deuses, a arte não pode ordenar nossos dramas: os momentos mais profundos da arte expressam esta frustração. Quando abandonados como insustentável superstição, a arte afundou na melancolia. Tornou-se uma amante das trevas e envolveu seus objetos em uma sugestão nostálgica de um mundo à meia-luz. Para mim, a grande façanha dos séculos em que o artista aceitou o provável e o familiar como seus temas foram as pinturas do ser humano, sozinho em um momento de extrema imobilidade.

Mas a figura solitária não poderia assentar seu limbo em um gesto único que poderia indicar seu interesse quanto ao fato da mortalidade e um apetite insaciável pela experiência onipresente em face desse fato. Nem poderia a solidão ser subjugada. Poderia juntar praias e ruas e parques apenas através da coincidência, e com seu companheiro formar um tableau vivant de incomunicabilidade humana.

Eu não acredito que haja uma questão entre ser abstrato ou representacional. É realmente o caso de acabar este silêncio e solidão, de respirar e esticar os braços novamente.

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